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ACEITO
Clínica Doutor Pinto Coelho

Tem 70 anos e seis filhos de quatro relações diferentes, que conseguiu unir e reunir ao longo dos anos. Só isto já era motivo para conversarmos. Ter um filho com uma doença degenerativa pelo qual não baixa os braços, outra com meses de vida, ou ir ao ginásio às quatro e meia da manhã todos os dias, fez-me sentar e absorver tudo o que me contou numa manhã, no seu consultório.  

Ao longo de toda a conversa que tivemos com Manuel Pinto Coelho, é na última pergunta que lhe fazemos - "Onde é que vai arranjar forças?" - que o vemos ficar sem resposta. "Eu não sei...". Percebemos que aqui termina a nossa conversa, sabendo que não podíamos ir mais além disto.  

Até aqui, Manuel Pinto Coelho, sempre positivo e simpático, falou de tudo, sem quaisquer hesitações.  

Comecemos pela família: Manuel tem seis filhos, de quatro mulheres diferentes. Quarenta e seis anos separam Bernardo, o seu primeiro filho, de Sofia, a bebé com pouco mais de meio ano, que ainda está a ser amamentada. Uma enorme diferença de idades, que o faz ser um pai diferente para cada um, ainda que com o mesmo amor.  

"Seria uma anormalidade total ter seis filhos e não querer saber se estão bem ou mal. A única forma de cuidar das pessoas é ouvi-las." E fez questão de nos falar de um por um, com um orgulho imenso na sua descendência. "Primeiro foram o Bernardo e a Filipa, do meu primeiro casamento, com a Fiô. Depois, de uma relação que tive com a Tucha Lucena, nasceu a Marta. A seguir veio o Manei, do casamento com a João. E agora, da Daiana, a Lara e a Sofia", explicou-nos. E o mesmo fez com os seus sete netos: Marta, Carolina, Mariana, Matilde, Vasco, Tomás e Manuel, todos mais velhos que as suas filhas mais novas.  

"São uns irmãos perfeitamente unidos, apesar da Marta estar em África. Mas agora com os Skypes,WhatsApp, Face- Time, tudo fica mais perto. A educação faz-se por modelos de referência. Não se faz pelas pessoas estarem fisicamente presentes. O que é preciso é, na realidade, a pessoa constituir-se modelo de algum modo, pela sua forma de estar, de pensar e de viver até, independente do espaço físico em que está. Se as pessoas vêem alguma forma de exemplo que podem ir buscar algo que os ajude a crescer, é isso que eu pretendo fazer. Através de uma prática de vida, poderem agarrar uma ou outra coisa que eu faça bem, e pensar que vale a pena ir pelo mesmo caminho."  

A atenção dedicada a cada um dos seus filhos e netos, aos quais acrescentou sempre um adjetivo bonito, ficou clara neste tempo que estivemos no seu consultório, à conversa, antes de marcarmos as fotografias num ambiente mais familiar. "Pode ter a certeza que se a minha filha Marta, lá em Maputo, precisar de mim com urgência, no dia seguinte estou lá. É que largo tudo e vou lá ter com ela. E ela sabe disso."  

Dos seis, só duas vivem consigo. As mais novas. "Os outros já estão autonomizados, com menos apoio do pai. E o Bernardo com muito apoio, por razões muito peculiares."  

Bernardo sofre de ELA, Esclerose Lateral Amiotrófica, uma doença neurológica degenerativa, progressiva e rara.  

Tenho de vos dizer que o Bernardo é meu amigo, de há muitos anos e, por isso, este "levantar do tapete" custou.  

Manuel tem sido seu médico, pai, amigo e alicerce durante todo este processo duro e doloroso. "Fui eu quem reparou no primeiro sinal. Ele vivia comigo e nós corríamos juntos todos os dias. Comecei a reparar que ele batia com o pé em cheio no chão. E disse-lhe que aquilo não era maneira de se correr: 'ou bate com o calcanhar ou com a ponta do pé'. Achei aquilo esquisito, alguma coisa não batia certo. Foi o primeiro sinal."  

Há dez anos, que lhes chegou o pesado diagnóstico da ELA.  

Bernardo era um desportista. Em todos os desportos que se metia era exímio. "Jogava ténis lindamente, fazia surf, e golfe. Chegou a bater uma pancada abaixo do par do campo. Tinha um swing... Faz confusão ver uma pessoa nessas circunstâncias, de repente, numa cadeira de rodas..."  

Agora a família enche-se de esperança com a hipótese de uma outra doença, com sintomas que podem fazer confundir as duas situações. "Vou dizer-lhe uma coisa em primeira mão. Extraordinariamente, está a pôr-se a hipótese do Bernardo não ter ELA e ter a doença de Lyme. Isso é notável porque na doença de Lyme estamos a ver o inimigo à nossa frente, que é uma mordidela de uma carraça. Ninguém sabe o tratamento para a ELA porque ninguém sabe o que é ELA, ninguém percebe como aparece, porque se soubesse talvez já houvesse algum tratamento. E agora, parece que poderá ser uma doença dessa natureza. A doença de Lyme é gravíssima também, mas com a diferença de que se está a ver o inimigo.  Enquanto na ELA não se vê o inimigo."  

A doença de Lyme foi descoberta em 1976. O nome foi dado pelo número de casos que ocorreram na cidade de Lyme, em Connecticut, nos Estados Unidos, mas há manifestações em algumas regiões da europa central e de leste, bem como no sudeste da Escandinávia e ao norte do Mediterrâneo, em países como Itália, Espanha e Grécia, incluindo Portugal. "De repente, em Itália, não sei quantos jogadores de futebol foram diagnosticados com ELA, o que não é normal, porque se calhar não era ELA, era doença de Lyme. Uma doença neurodegenerativa numa equipa inteira não é normal...

O Bernardo viveu quatro anos nos Estados Unidos e jogou futebol americano em campos relvados, em Itália...". Estão neste momento a montar toda uma estratégia, sobre a qual Manuel confidencia: "Na base do wishfull thinking, está tudo muito expectante para ver o que vai resultar desta abordagem diferente que está agora a ser feita com o Bernardo. Estou a contar isto pela primeira vez, não contei isto a ninguém..."  

Por todos os seus seis filhos, netos, por ter 70 anos, muitas responsabilidades e muitos pontos de interesse, Manuel Pinto Coelho não deixa correr o tempo. Todos os dias se deita às nove da noite, para ir para o ginásio das quatro e meia às cinco da manhã, cinco vezes por semana. "Na minha idade já não se dorme mais do que sete horas", conta. E também diz que já não acorda quando a sua filha mais nova está a mamar. Ao contrário do filho mais velho, confidencia que não tem jeito para desportos de grupo. Mas adora correr e já fez 14 meias-maratonas.  

Em julho do ano passado fez 70 anos e juntou as quatro mães dos seus filhos no seu jantar. "É mérito meu?! Não, obviamente, é mérito da minha atual mulher." Diz que este feito se faz com a graça de Deus e, depois, com alguma sorte. Acredita que, desta forma, toda a gente está contente, a começar pelos filhos que têm os pais, embora fisicamente em casas distintas, mas que continuam a manter uma boa relação: "Contando com as mães extraordinárias que tive a sorte de encontrar pelo caminho. A nossa relação logicamente teve os seus momentos, depois a chama entre nós apagou-se e nós, realmente, tivemos o bom senso e a sorte de nunca clivarmos a nossa relação de forma a prejudicar quem da nossa relação nasceu. Era o mais importante." E não fica por aqui. Diz que tem muita sorte com todas as pessoas que se juntaram e se mantêm junto a si. "O meu filho Manei, por exemplo, que tem um padrasto extraordinário, não só não perdeu o pai biológico, que continuo a ser eu, mas descobriu um outro pai extraordinário que só tem um grande defeito que é ser do Benfica", confidencia a rir. "É um luxo ter uma pessoa da qualidade dele na vida do meu filho Manei."  

E agora já sabem como acabou a nossa conversa. As forças devem por vezes faltar-lhe. Mas arranja novas mesmo sem saber onde. O que importa é este amor que gerou e que faz desta tribo um exemplo e do seu chefe, uma inspiração.  

Revista Tribo - O pai sem idade


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